“Você viu? Aquele casalzinho ficava postando fotos, declarações de amor e vídeos tão fofos quanto cafonas no “Insta” o tempo todo; eram stories e mais stories de viagens; eles pareciam o mapa mundi. Agora que estão separados, tá um jogando no ventilador do outro as cagadas todas, numa baixaria de fazer inveja aos “Casos de Família” do SBT. Era tudo mentira! As pessoas mentem muito nas redes sociais, na moral.”

Será?

Vocês já devem ter se deparado com observações como essas, dentro e fora das redes sociais. Pessoas criticando vidas de “comercial de margarina” de casais famosos (ou de amigos, conhecidos) que postam fotos de suas viagens a praias paradisíacas, de seus jantares maravilhosos, de seus momentos de afeto, mas nunca de seus “podres”. É familiar, não? Mas desde quando essas postagens não podem ser verdades?

Lá nos primórdios, há uns 20, 25 anos mais ou menos, nós não postávamos fotos, mas tínhamos álbuns de fotografias. Era uma trabalheira danada. A gente “tirava as fotos” em filmes de 24, 36 poses, com ISO 200 ou ISO 400 — sem ter a mais remota ideia da qualidade e nenhuma noção do que seria ISO —, mandávamos revelar na lojinha da esquina e ficávamos em casa ansiosos esperando pelo resultado. Às vezes, das 24 poses, 14 “queimavam”. Das que sobravam, metade ficavam horrorosas, estouradas ou borradas, e eram limadas do álbum.

Filme fotográfico: assim era a vida em imagem estática, antes das câmeras digitais e dos smartphones.

Era tanto trabalho, tanto suspense, que só momentos especiais valiam o esforço. Os primeiros anos de vida dos filhos, a festa de 15 anos da filha; batizados, formaturas, casamentos, fins de semana na praia e viagens à Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Tinha que registrar tudo, e colocar no álbum — caso as fotos ficassem boas, é claro! Certas coisas não voltavam mais. Porque elas nunca voltam.

Por isso, ninguém perdia tempo fotografando o arroz que ficou empapado — mas se fosse um risoto, valia o click! — do feijão queimado, do fim de semana chuvoso na praia; do entrevero com o adversário de casamento no churrasco da família. Não, ninguém registrava isso. Registrava-se, sim, os bons momentos.

E iluminar os bons momentos não significa ignorar que a vida tenha seus dissabores. As contas chegam e os salários nem sempre dão conta do desafio. O filho repete o ano letivo pela terceira vez e adia o sonho da faculdade. O oponente conjugal se torna insuportável. A vida real é assim, com mais baixos do que altos na maioria das vezes.

Mas, ao fazer recortes dos momentos de rara beleza, uma pessoa não mentia naquela época, assim como não mente hoje necessariamente.

As pessoas apenas gostam de mostrar aos outros e a si mesmas que, sim, também acontecem coisas boas em suas vidas, dignas de cliques. Não mostrar tudo que acontece de ruim é apenas uma decisão editorial individual de cada um. Era assim com os filmes kodac, é assim com os registros dos iphones. Nem eclipse tem graça quando o céu está encoberto…

De repente, a crítica apenas camufla uma idealização excessiva acerca da vida alheia, ou certa dose de inveja com o que acontece de bom no mundo do outro; quem sabe uma cobiça desenfreada pela perfeição? Críticas, críticas…

E críticas vazias, vamos combinar. Até porque, veja bem, ter uma conta em uma rede social ou curtir e acompanhar determinada pessoa não é um imperativo categórico. É uma escolha. É possível não olhar essas coisas. Mas se baixou o fetiche de olhar, é preciso ter discernimento e maturidade para entender que, se a gente mal sabe o que se passa em nossas próprias vidas, em nossas relações com aqueles que nos importam, o que dirá dos bastidores e dos stories e feeds dos outros. E está tudo bem. Vida que segue, e que se viva a vida.

Logo, quem posta fotos maravilhosas em redes sociais, na maioria das vezes, não está mentindo, não. Está apenas retratando a fração feliz de suas vidas, o que não significa que essas vidas sejam um oceano de perfeição. Muita história naufraga no dia a dia. Mas aquele beijo apaixonado, aquele jantar à luz da lua, aquela viagem, ah!, isso marca, não se esquece.

Desde que não dissimulem crimes, que mal faz mostrar pequenas doses de felicidade em detrimento a litros de sofrimento?

Curto, publico, às vezes até compartilho. Você também faz isso que eu sei. Estou mentindo?