
O sol da manhã é o meu melhor vizinho. Sorridente, não se preocupa com o ocaso. Sequer faz biquinho quando percebe que vai chover. Não reclama, não enche meu saco, não quer saber da minha vida, só traz sina. Mesmo protagonista inveterado, desses nascidos para primeiras páginas, como são os astros de verdade, tem a humildade de permitir às nuvens seus dias de celebridades… Ah os astros…
Hoje, veio trazer um recado logo cedo. Esperto, percebeu que seu amigo aqui precisava ouvir certas sinceridades. Recado dado, descansou. Agora, do alto do oitavo andar, sobre a imponência do Capanema, admiro as nuvens.
Os “tensos” anseiam por saber: mas quê raios de recado foi esse, ora bolas? Respondo, claudicante… Ah como eu gosto de irritar quem vive a vida ao acaso.
Foi um papo entre dois grandes amigos, caramba… mais? Não importa… mas digo: “aproveite os dias de chuva, graças a eles brotam flores no jardim” disse ele, e “siga sem perder de vista que viver é uma dádiva, fatal, mas uma graça, não uma dívida a ser quitada com parcimônia”, arrematou, com o brilhantismo de sempre.
Breve, não espera; lépida, exige dedicação, assim é a vida, e ao menos isso eu aprendi.
E foi assim, em meio a uma batalha de sons e tons e reflexões, buscando desesperadamente um verso simples, sereno, à italiana, que a canção se fez perfeita, e sozinha. Opa!, parêntese: consegui misturar sangue latino e serenidade numa mesma frase; daqui a pouco vou começar a acreditar que levo jeito para essa brincadeira de juntar sílabas.
Agora, preciso apenas harmonizar alguns acordes simples, porque a melodia, a melodia é linda, suave e impassível, como a face perfeita de um sorriso tímido numa noite bem-acabada, tipo dessas que tecem saudades. A canção é perfeita como ela só, e em dó.
Pasmem!, faz apenas vinte e sete dias — e eu cá me rendo aos meus vinte e sete anos (mas aí eu divago…) — que começamos a canção, que cometi o primeiro verso. Então, há quase trinta dias eu não preciso me esforçar para desenhar o sol; ele me vem sorrindo todos os dias, até nos dias de chuva.
A canção ficou sem estribilho, e de propósito!; odeio me repetir; tampouco deixei espaço para solos, porque ela fala por si: “como um sol da manhã…”. Você vai ouvir.
Texto escrito em agosto de 2010 para contar a história de uma composição que fiz à época. Achei outro dia por acaso. E como é para isso que servem os blogs, para fazer registros, tá registrado!😉 A canção? Não encontrei os registros ainda. Foram tantas mudanças desde então, que ela se perdeu.