Religiosos, torcedores, fãs e militantes, esses tanto os à esquerda quanto os à direita do espectro político, carregam consigo um traço em comum: a certeza de que o seu grupo está sempre com a razão enquanto os demais, errados.

Grupos reunidos em torno de uma ideia têm essa característica. Eu, do alto da minha ignorância, tendo a achar que os grupos estão quase sempre equivocados. Ainda assim, sinto a necessidade de me perguntar: não seria eu o errado? A dúvida é uma benção; a certeza, um horror.

Em nome de certezas, pessoas têm morrido de fome, têm morrido ao redor de ginásios e de estádios, têm morrido em zonas de guerra e em em zonas periféricas, em tempos de paz ou em tempos eleitorais e eleitoreiros.

Porque a dúvida, para usar uma expressão da moda, cafona como todo modismo linguístico e sociológico, perdeu o “lugar de fala”.

E sem dúvida — eis uma certeza frívola, mas indispensável!—, isso passa à margem da educação formal ou da propensão cultural, acomete letrados e iletrados, mansos e bravos e transita faceira por todos os gêneros suplantando qualquer senso de identidade.

Mas estariam essas pessoas totalmente equivocadas? Claro que não. Religiões de quando em quando desempenham papéis importantes nas sociedades, times vencem por méritos, artistas criam obras brilhantes e políticos, de esquerda ou de direita, ocasionalmente acertam. Quase todos erram bem mais do que acertam… Mas acertam.

A menos que sejam extremistas, esses só falham. Jair Bolsonaro, Vladimir Putin, Kim Jong-Un, Volodymyr Zelensky, Ismail Haniyeh, Benjamin Netanyahu e tantos outros governantes inumanos habitando a Terra são provas contumazes disso.

Portanto, não se trata aqui de canonizar a dúvida, não. Há erros que são crassos, há derrotas que são esquisitas e há decisões políticas desprezíveis, indefensáveis. O problema surge quando se ignoram os erros por devoção aos que erram.

É quando não é a sua religião que falha, são as outras que não a entendem; não é o seu time que entrega o jogo, a culpa é do árbitro; não é o seu ídolo que faz bobagem, são os críticos que não entendem a genialidade dele; não é o seu político que delibera e propaga uma decisão política execrável e você bovinamente defende a ideia, afinal o antecessor “fez a mesma coisa e ninguém falou nada”. Está me entendendo?

Há um compromisso com a ideia, não com a lógica, com a razão ou com o senso de justiça, de liberdade e de verdade. É quando “as suas ideias não correspondem aos fatos”, meu chapa. É quando não há necessidade de pensar, de ter uma ideia original ou uma opinião dissonante. Afinal, o grupo pensa, cria e decide “por mim”.

Relativizar erros e acertos a depender de qual apito o errado e o certo tocam, não resta dúvida, é uma escolha imoral e perigosa. O tribunal da internet com suas sentenças medievais de “cancelamentos” seletivos não me deixam mentir.

Portanto, professe sua crença, torça pelo seu time, vibre pelo seu ídolo, apoie o seu político, mas não abandone sua liberdade de pensar, de refletir, de ter ideias e de ter a perspicácia de duvidar. Fazer parte de um conjunto não precisa anular a sua singularidade.

“Estou certo, ou estou errado?”