Li, na Folha, o ótimo artigo da Anna Virginia Balloussier comentando uma passagem que segundo ela tem incomodado parte da plateia que tem ido acompanhar a turnê de Caetano Veloso e Maria Bethânia pelo país. No título do texto, Anna Virgínia deixa a pergunta: “Por que Caetano Veloso cantar gospel incomoda tanto a sua plateia?”. Ele próprio dá uma pista a respeito desse enfado, ao citar a canção “Deus Cuida de Mim”, conhecida na voz do pastor evangélico Kléber Lucas: “Essa é a única canção que não recebe aplausos entusiasmados”, disse o filho de Dona Canô. Por que será? Atrevido que sou, eu, um agnóstico com requintes de curiosidade, me atrevo a dizer por quê: Caetano Veloso cantar gospel incomoda porque desnuda a plateia e expõe um preconceito. “Como assim?!, somos progressistas!, sem preconceitos por natureza”. Bem…
Caê entoar um louvor incomoda, porque parcela considerável da elite intelectual progressista brasileira, que é o público massivo dele e de sua irmã, Bethânia, e que vive numa bolha, sente desprezo e é preconceituosa com o evangélico, por se achar moral e intelectualmente superior a qualquer seguidor dessa vertente do Cristianismo.
Um elitismo arrogante que preceitua abertamente o entendimento de que todo “crente” seria igual, seria bolsonarista e, pois, seria de extrema direita, o que passa longe de ser uma verdade incontestável. O evangélico é heterogêneo, não é um povo coeso como a bancada da bíblia quer fazer crer.
Por óbvio, não há como desprezar o fato de que o bolsonarismo, com a ajuda de mercadores da fé travestidos de pastores enviados por Deus, cooptou parte do público evangélico para o seu campo de batalha. Isso é um fato.
Há, aliás, diversas explicações, que fogem ao lugar comum, para isso, e que vou deixar para um próximo texto. O ponto aqui é outro. Assim como o pastor progressista Kléber Lucas, que firmou posição contrária aos pastores de extrema direita que fazem uso de Cristo para defender o Inominável, parte significante do evangelicalismo não é estúpida, não é bolsonarista e não é a escória da sociedade, não.
Assim como não se deve menosprezar o papel social relevante que as igrejas exercem ao acolher e apoiar a quem mais precisa nos momentos mais delicados. Algo também visto nos terreiros da umbanda e do candomblé, nas igrejas católicas, nos centros espíritas, nas sinagogas, nas mesquitas e nos grupos de pessoas que em nada creem, claro.
O fato é que nessa reunião em torno da fé laços são criados, tetos são recebidos, bem como apoio emocional, emprego, remédios e comida, também,
Ou seja, nem sempre é por falta de inteligência que a pessoa acaba ficando na igreja, não. Muitas vezes é por senso de pertenciamento, de gratidão e de fé, é por ter sido amparada quando precisava de apoio , algo que o Estado, num país gigante em tamanho e em desigualdade como o Brasil é, não consegue suprir sozinho.
Diante desse cenário, qualquer ataque ou sentimento de desprezo generalizado é tão somente expressão do mais cristalino preconceito e afirmação de uma pretensa superiodade moral..
O engraçado é que depois essa mesma elite que desdenha dessas pessoas, descolada da realidade que está, vai às timelines e fica se perguntando por que não consegue atrair esse pessoal para suas fileiras. Não atraem porque debocham, isolam, desprezam, generalizam, ora.
Ao cantar “Deus Cuida de Mim”, Caetano Veloso não está endossando o comportamento retrógado de uma fatia ignorante dos evangélicos; ele está, antes de tudo, é fazendo arte, experimentando como fez a carreira inteira e expondo uma canção que achou bonita, como já fez tantas e tantas vezes com canções e citações às religiões de matrizes africanas, ou ao ateísmo, além de sinalizar para um naco do povo evangélico que não é de extrema direita que ele nota essa gente e a respeita, porque, ora bolas, são seres humanos como somos todos nós, uai.
Claro que com isso ele também marca uma posição política, ao tentar construir uma ponte sobre um abismo que se abriu sob a sociedade brasileira. Uma ponte que é muito necessária, diga-se de passagem.
Hoje, ainda temos o Lula, alvíssaras!, mas que não é eterno, e o inimigo, o fascismo, mora bem pertinho, ao lado.
Por isso, a elite progressista e intelectual brasileira deveria se esforçar um pouco mais para entender que vai ser bem menos traumático o pós-Lula se trouxer para perto de si aqueles que os maus pastores levaram às trevas do pensamento humano. E não vai ser trabalhando no deboche que isso vai acontecer.
Por fim, e não menos importante, claro que todos têm direito a não gostar da música, seja da letra, seja da harmonia, seja da melodia, seja do arranjo, seja da execução. Óbvio que sim. É uma canção e os gostos não são e nem precisam ser iguais.
Agora, desprezar por associá-la a algo menor ou ruim por ser um louvor é arrogância e preconceito. E quando nem Caetano escapa a esse tipo de patrulha, percebe-se que o abismo vai ficando a cada dia mais fundo.
Por esse motivo, entendo que Caetano Veloso cantar gospel incomoda porque desnuda a plateia, o que não deveria acontecer. Deveria, isso sim, é servir como aceno a um novo tempo, um instante mais empático e estimado.