Hoje acordei ao som de “Tempo Perdido”, da Legião Urbana, de Renato Russo, daquela banda que as pessoas ou adoram amar, ou amam odiar, como se não houvesse amanhã. Tô nem aí, é o toque do meu despertador, é a crônica e a tônica do meu dia a dia. Acordei e fiquei lá, deitado, ouvindo, pensando, sem soneca, “todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou”…
Uma confissão: eu gostaria de ter passado a minha existência aqui a oeste do Meridiano de Greenwich sem a Covid-19 me olhando de soslaio o tempo inteiro. Essa doença derrubou a linha imaginária que separa o ocidente do oriente estabelecida por Sir George Biddell Airy e esparramou angústia e sofrimento pelo planeta como se este fosse um sofá. Exímia democrata, essa infeliz.
Não acredito que seja preciso sofrer para aprender a dar valor, não. Mas não vou negar, no meu caso, o desacelerar obrigatório fez a diferença.
Essa peste invisível me obrigou a refletir e a perceber muitos erros que eu cometia por distração. Tem gente que tropeça na arrogância sem perceber. Outros precisam dum empurrão. Qual o seu time?
Eu me posiciono assim nesse jogo: fui um tolo ao desperdiçar alguns nacos de vida por sentir medo de perder a segurança do piloto automático. Já passei da idade de bradar aquela ideia pueril e batida de que não me arrependo de nada do que eu fiz. Só um psicopata ou um mentiroso sustenta isso.
Não me arrependo das escolhas, tendo em vista que pareciam acertadas no momento em que as fiz, mesmo que o tempo tenha provado que não. Foram aprendizados, e não me arrependo do que aprendo.
Mas eu me arrependo, sim, daquilo que eu disse sem necessidade. E uma ideia que eu passei quase três décadas repetindo o tempo inteiro, e me arrependo de tê-la dito, é a de que não gostava de viver.
Eu entendi, fui um tolo, desperdicei muitas chances. Passou. Eu amo estar aqui.
Lição aprendida: esse voo pode até ser longo, mas também pode ser interrompido a qualquer momento sem consulta prévia.
Mas não precisa ser um desastre na maioria das vezes, não…
Outro dia abordei isso numa sessão de terapia, ao traçar um paralelo entre a minha situação em distanciamento social e o momento atual, em que até o mundo resolveu flertar um pouquinho com o consenso na busca por formas de combater, quem sabe — a história vai dizer —, o mal do século: quando o calo aperta, não importa a marca, a gente faz de tudo por um calçado confortável.
Mesmo assim, é estranho. Por mais que eu nunca perdesse de vista a certeza do acaso da vida, precisou um vírus genocida vir exemplificar essa ideia, demonstrá-la a mim na prática, pondo abaixo uma biblioteca inteira de grandes pensadores.
E foi assim, com esse descaso automatizado, que eu, embora sempre tenha gostado de escrever, sempre tenha direcionado a minha vida inteira nessa direção e nunca tenha parado com os meus rabiscos — quem sabe se por medo, comodismo, ou se medo e comodismo —, fiquei um tempinho sem explorar isso como deveria. Era sempre assim, ó:
“De amanhã não passa, vou pegar um freela aqui , tentar outro acolá, e, aos poucos, vou construindo um portfólio, aumentando a minha rede de contatos — dizia eu, em silêncio. — Vai ser um hobby, claro, afinal o meu emprego é bom demais para os padrões sociais do país, não penso em largá-lo. Mas vou escrever, né? afinal eu gosto disso, minhas professoras gostavam dos rabiscos, alguns amigos elogiam o que eu registro” — seguia mentindo, sem a menor vergonha.
(A verdade? Sentia era medo de perder o emprego e não conseguir outro na escrita tão cedo; sem contar a vergonha de expor o que eu escrevia ou fracassar à primeira crítica — a mente da gente é um latifúndio de idiossincrasias.)
E seguia a ladainha. “— Mas hoje não dá mais, já tá tarde, e preciso comprar pilhas pro meu controle remoto, antes que o mercado feche — dizia eu”. O autoengano é apaixonante, esse cretino. Quando a gente quer mentir pra si mesmo, encontra motivo. Ah se encontra…
Sabe quando esse amanhã chegou? Sempre, porém nunca. Porque sempre chegava um amanhã — tive sorte até demais! — mas ao mesmo tempo eu sempre poderia deixar para depois de amanhã, e para depois, e para depois… E deixei, não saí do lugar.
Embora convicto da minha mortalidade — nunca fui lá não-sei-onde para saber se é bom, se tem volta e se o meu cetismo é só sarcasmo — eu vivia como se fosse um imortal, que não morre no final, desses que a Sandy canta magistralmente. E isso sem me dar conta. Na confusão do dia a dia, como dizem.
Daí apareceu um vírus, entrei em quarentena forçada e me vi sentindo falta até do que eu dizia que não gostava: comida de self service, metrô lotado, gente chata, fofoca de copa de firma, até de rima, de tudo, tudo aquilo ao meu redor que eu nunca prestava atenção direito, mas jurava o tempo inteiro que detestava. Resmungava assim como o olho pisca.
E com esse descaso travestido de pressa, sem perceber, sequer dava bola a uma pessoa de vital importância na minha vida: a mim mesmo. Viver não é confuso, a complicação está na maneira como encaramos essa brincadeira.
Sem medo de errar, Lulu tem razão, “eu não pedi para nascer”, também não sei por que estou aqui e ninguém vai me perguntar se já quero ir embora… Vou ser tirado daqui sem compromisso. Mas que seja à força! E uma coisa é certa: “não vou sobrar de vítima das circunstâncias”, não. Ah!, mas não vou mesmo!
Então, não é o sobre o que eu quis ontem, tampouco me interessa o que vou cobiçar amanhã, a vida é esse instante, é esse segundo, são esses pequenos olhos verdes piscando enquanto as teclas vão se combinando “como se fosse uma sinfonia” agora.
Enquanto eu tiver uns segundinhos a mais de hora-extra, seja a oeste ou a leste de Greenwich, vou trabalhar escrevendo e escrever trabalhando, porque eu quero, eu gosto, eu preciso e eu posso.

Nós só precisamos ir”
Por essa razão, além de me fazer sorrir, a escrita vai ser o meu ganha-pão, só que agora de verdade. Nunca é tarde quando se decide que é hoje.
Continuo com um bom emprego, não passo por privações (e sou muito grato por ter mais essa sorte) e tampouco é por vaidade — e se fosse, não haveria mal nenhum nisso! —. A minha decisão foi simples assim: eu quero viver, correndo todos os riscos, escrevendo.
Não vai ser fácil. Os colegas que assim como eu deram um 360º em suas vidas para se dedicarem à escrita profissional como freelancer são repletos de histórias mostrando os malabarismos diários.
Mas essas mesmas pessoas também deixam transparecer em todos os períodos, simples ou compostos, escritos com paixão, o prazer que sentem ao pagar os boletos fazendo o que sabem fazer de melhor: brincando de criar.
Chega de desperdiçar oxigênio, pois.
Cada instante a partir de agora vai ser como a primeira volta de uma corrida. E numa corrida, não importa a posição ao avistar a quadriculada na volta 71, incerta por si só, porque a volta mais importante é sempre a primeira. Sem ela, não tem corrida.