Diálogo entreouvido numa padaria da zona norte do Rio de Janeiro:
— Eu não vou usar essa merda, não! Eu fico irritado! Sem contar que já tive essa merda desse vírus aí, minha família toda teve e não foi nada demais. Tá todo mundo vivo e com saúde. Tenho 70 anos!! 70, porra!!!!
— Mas senhor, é a lei…
— Quem tem que respeitar a lei não respeita, garoto! Eu pago meu imposto, trabalhei a vida toda, sou aposentado, faço o que eu quiser. Fica na tua aí!
Esse diálogo, quase um monólogo, foi travado entre um atendente de padaria e um senhor que foi comprar quatro pães, desses do tipo francês — aqueles crocantes por fora e molinhos por dentro — e um sonho, na padaria aqui da esquina da minha rua.
Ninguém me contou, eu vivi isso, estava lá, fui testemunha ocular dessa historinha. Cada repórter tem o Muro de Berlim que merece…
E nem se eu quisesse, conseguiria ter sido discreto naqueles dois intermináveis minutos. O tom de voz do jovem velho, ou velho jovem, não permitiria.
O sonho, a propósito, parecia uma delícia. Cobicei-o, pois. Comprei logo dois, já comi um, e farei a contraprova mais tarde. Sou um desconfiado incorrigível. Predicativo que acompanha quem se ocupa com os fatos. Adiante.

Em isolamento social, não importa se é um sonho, um brioche ou uma bisnaguinha, essas companhias acalmam a alma…
Mas antes de sonhar, é importante contextualizar, uma tarefa base do bom jornalismo.
Esse diálogo se deu no momento em que a cidade do Rio de Janeiro já registrara o assombroso número de 95.337 pessoas infectadas pelo novo coronavirus e de 10.116 mortes em decorrência de complicações causadas por essa doença assassina, que já tirara a vida de quase um milhão de pessoas no mundo inteiro até então. Não se deve desumanizar esses números. Eles seguem aumentando dia após dia.
Para se ter uma ideia, apenas em Irajá, cenário em que se deu essa curta troca de palavras, 1.302 pessoas tinham tido o desprazer de ter um encontro a contragosto com a Covid-19 até esse instante. Dessas, 164 já não mais poderiam acompanhar essa conversa nem perder tempo lendo essa crônica.
Eu não sou médico nem vidente, optei, vocês sabem, por um caminho mais fácil, o do Jornalismo. Mas antes de tudo, brinco há quase 38 anos de pensar que sou uma evolução dessa espécie condescendente que não se envergonhou em batizar a si própria como Sapiens.
Então, posso afirmar, categoricamente, que durante esse tempo aprendi algumas pequenas coisas. Poucas, mas úteis na busca por breves alegrias.
Uma delas, depois de muita experiência malsucedida, é que não posso misturar destilados com fermentados sob pena de uma ressaca monstruosa que o acúmulo de anos só faz piorar.
Com alguns medicamentos e estadas forçadas em leitos hospitalares, aprendi também que assim como há habilidades que não se pode aperfeiçoar a prática por meio da repetição, como o suicídio (afinal, caso o indivíduo seja bem-sucedido, já era, vai praticar uma vez só), há organismos sem muitos pontos percentuais na margem de erros.
Há pessoas, como a bem-aventurada família desse senhor irritadiço já ás 7h da manhã, com organismos fortes, robustos, pau para toda obra, que aguentam o tranco, sobrevivem ao Brasil. Mas há aquelas mais mirradinhas, minguadas em vitalidade, com organismos que não podem flertar um segundo sequer com o perigo. Vivo nesse grupo.
Ou seja, não é porque uma pessoa, um parente, um amigo, um amigo do amigo de alguém teve uma determinada doença e se recuperou bem dessa enfermidade que quem está imediatamente à frente na fila do pão — eu estava atrás, como sempre — terá a mesma força e a mesma sorte. Essa brincadeira de viver não funciona dessa maneira.
A única certeza absoluta da vida é a morte, mas vamos combinar: não há a menor necessidade de colaborar com ela; ela já traz a crueldade em si, é autossuficiente. Pior que isso, só mesmo arriscar vidas que não são nossas à toa.
Não foi apenas por causa disso, claro, mas a linguagem tratou de dispor de um substantivo feito sob medida para os que se julgam imortais: o egoísmo.
Claro, não me refiro aos que saem porque precisam, aos que saem para encontrar um ente querido, conversar com um amigo, namorar a linha do horizonte sobre o mar, aos que saem para não enlouquecer. Não há nada de errado nisso, tomando todos os cuidados, evidentemente. Pelo contrário.
Afinal, de nada vai adiantar sobreviver ao novo coronavírus e morrer de tédio ou de fome, não é mesmo? Falo diretamente é com os egoístas que dão mau exemplo mesmo.
Assim como o mundo não é o grupo de WhatsApp da família, cuja única utilidade além do dissenso é o aperfeiçoamento dos atributos contumazes da ignorância (na maioria das vezes), não somos, cada um de nós, o centro do universo. Constatar isso não exige lá muito “estudo”, muita proficiência, não. Só um pouquinho de humanidade dá conta do recado perfeitamente. Pena que não se encontra isso em prateleiras de padarias…
Ah, além dos dois sonhos, comprei também um pacote de brioches. Em distanciamento social, essas delícias são companhias que acalentam a alma. Distanciamento que é, antes de tudo, a melhor prova de humanidade que se pode ter nesse momento.
O #fiqueemcasa, se parar para pensar, é estar ao lado do mundo inteiro, só que acenando de longe. É mais companhia que solidão. É compaixão.
Antes de comer o segundo sonho, um minutinho da sua atenção. O fato de algumas figuras públicas — acordei otimista! — não respeitarem as leis, não obriga nenhum cidadão a desobedecê-las sob a justificativa injustificável de estar apenas seguindo o [mau] exemplo. Essa é só mais uma faceta do egoísmo aceita pelo senso comum. “Desapega!”
No entanto, para não deixar o recado pela metade: ‘ô seu político’, respeita a lei, pô! Embora eu torça para que não, porque aprendi a amar vida, sinto-me obrigado a explicar o óbvio a vocês: esse vírus é muito democrático, pode dar um toc toc silencioso nas suas portas também. Sejam exemplos.
Hum, ah os sonhos… O segundo estava tão delicioso quanto o primeiro, vou deixar os brioches para o fim do dia.