Messi ou CR7? Beatles ou Stones? Senna ou Schumacher? Pelé é mesmo o melhor jogador de futebol de todos os tempos? Hamilton é maior do que Schumacher na história da Fórmula 1?
Há uma infinidade de comparações parecidas com essas. Parecidas, um pouco infantis e ignorantes, porque geram debates que desembocam em batalhas sangrentas nas redes sociais destruindo amizades, relacionamentos e oportunidades a troco de nada.
Essas questões voltaram à tona nesse momento porque Lewis Hamilton, piloto da Mercedes na Fórmula 1, está prestes a igualar as 91 vitórias e os sete títulos mundiais conquistados por Michael Schumacher na maior categoria de esporte a motor do planeta.
Fica a pergunta: essas comparações e rixas realmente são importantes se você não é CR7, Messi, Pelé, Senna, Schumacher ou Hamilton; e nem fez parte do Quarteto de Liverpool ou faz parte da turma de desajustados do Jagger? A resposta é óbvia.
Não há nada de errado em ter preferências, eu tenho várias. Mas o fato de eu preferir o estilo, a performance, a habilidade, as opiniões e o talento de determinado ícone, seja do universo pop, seja do esporte, não me obriga a “#cancelar” o “rival” desse ou daquele outro só por não serem os meus prediletos.
Sabe por quê? Porque eu me sinto um privilegiado, isso sim, por vivenciar a história sendo escrita na tela do meu smartphone diariamente, e essa história não é construída apenas por aqueles com os quais mais me identico.
Aliás, esse maniqueísmo tem tornado a vida em sociedade um inferno. É sempre A ou B, pouco importando as belas nuances possíveis de se construir com o restante do alfabeto.
Chega a ser tautológico, mas gostar de uma coisa não significa detestar a outra. É possível gostar de ambas, ou gostar mais de uma do que de outra, ou não gostar de nenhuma ao preferir gostar de outra coisa, e tudo bem.
Eu assisto aos jogos de CR7 e Messi (meu sonho é vê-los no mesmo time um dia, nem que sejam por 45 minutos) pelo menos uma vez por semana, porque é bonito acompanhar o que eles são capazes de fazer em um campo de futebol.
E quando me perguntam quem é o melhor, a minha resposta é simples: “eu gosto mais do estilo do argentino, considero ele superior ao português, o que não quer dizer que o Cristiano não seja fantástico. Mas isso é irrelevante, porque os dois são espetaculares e isso é o que me interessa. Além do mais, sou torcedor do time de futebol da Argentina”.
Da mesma forma, pouco me importa quem é o melhor entre Federer, Nadal e Djokovic, no tênis. Os três são os melhores que eu tive a oportunidade de ver jogando. Isso é mágico! Tantos caras fantásticos vieram antes e eu não estava aqui para poder aplaudi-los.
Por isso, eu me considero um privilegiado por ter assistido a todas as corridas disputadas por Hamilton, Vettel, Alonso e Schumacher na Fórmula 1, e parte das corridas disputadas por Senna, Piquet, Mansell e Prost na categoria.
Ainda tem isso. Muita gente que sai no tapa virtual não acompanhou sequer a carreira do alemão inteira. O mundo não começou com o surgimento do Facebook ou do YouTube lamento dizer.
Por tudo isso, essas oportunidades que a vida me dá para acompanhar jornadas tão espetaculares me encantam mais do que discutir se x é maior ou igual a y. Eu gosto é de somar.
Aliás, eu gostaria é de ter tido a sorte, isso sim, de ver o Pelé jogar bola, ou de ter assistido às disputas épicas entre Niki Lauda e James Hunt.
Nossa, como teria sido mágico!, e aterrorizante!, ir a um show dos Beatles. Fico imaginando como teria sido uma turnê reunindo eles aos Stones no mesmo palco. Eu precisaria comercializar boa parte dos meus órgãos para conseguir comprar um ingresso, mas não perderia isso por nada nesse mundo.
Esse é ponto. Mesmo tendo cá as minhas preferências, o que me motiva é acompanhar a história, porque isso me dá a sensação de participar dela, além de me ajudar a evitar muita dor de cabeça desnecessária.
Afinal, quando se cai na tentação de querer provar que o seu herói é o melhor — como no jardim de infância, quando você dizia que a sua mochila era melhor do que a do amiguinho só porque ele não quis emprestar a você o lápis de cor —, perde-se o coleguinha, a oportunidade de colorir o desenho e sobra apenas a arrogância. Toda e qualquer semelhança com a sociedade brasileira dos últimos 10 anos não é mera coincidência, não.
Escolhas bobas como essa (É Hamilton ou é Schumacher?), normalmente, chegam acompanhadas por vitórias em brigas que não são suas, e que em muitos casos sequer existem, apenas pelo prazer de ganhar uma discussão; ou pela falsa sensação de prazer trazida pela percepção de que “algo seu” é melhor do que aquilo do resto, afinal de contas, você não joga nem vive para perder. Bobagem.
Aliás, Hamilton, olha que bacana!, é um bom exemplo de como uma coisa não anula a outra. Ele tem a sua preferência declarada por Ayrton Senna, mas nunca o vi diminuir ou menosprezar o alemão, pelo contrário. Ele se mostra honrado por atingir marcas que não imaginava sequer chegar perto quando estreou na F1.
Hamilton corre desde de criança e sabe como é difícil conseguir sucesso no automobilismo. Ele deve se lembrar de todos os meninos e meninas com quem dividiu curvas no kart e que nunca puderam fazer disso uma carreira. A valoração é outra.
O britânico deve igualar ou superar todos os números obtidos por Michael Schumacher na Fórmula 1, depois de ter ultrapassado os recordes de vários outros heróis das pistas — e tudo bem, isso faz parte da vida —, mas longe dos números, o melhor de tudo, nesse ano em “que o mundo está ao contrário e ninguém reparou”, é viver essa História.
