Fui ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro nesse início de 2022 para receber a aplicação da chamada dose de reforço da vacina contra a Covid-19. Pois bem, muita gente teve a mesma ideia e justamente no mesmo horário, ocasionando aquilo que os protocolos sanitários mais condenam: aglomeração.
Tentando reduzir o risco, mesmo mascarado e com as duas doses de Aztrazeneca tomadas em 2021 — que não me tornam imortal — , usei minha fita métrica imaginária para traçar 2 metros de distância entre mim e o cidadão à minha frente. Consegui.
Mas não obtive o mesmo sucesso face ao cidadão que estava atrás de mim na fila. Aparentemente, os neurônios dele estavam todos voltados ao Iphone que empunhava como um sabre de luz. Um sabre de luz cafona, não aquele espetacular de Star Wars.
Ele fungava em meu cangote como um zagueiro de várzea, por mais que eu tentasse me livrar da malquerida marcação. Eu o alertava; ele se desculpava, mas seguia errando. Só restava, então, minimizar os riscos com organização, o que esbarrava em outro problema.
Pela quantidade de pessoas presentes ali era complicado ordenar minimamente uma fila, tarefa que se tornava ainda mais complexa com o isolamento de uma das portas do setor do Theatro destinado à vacinação. E aqui chegamos ao X deste artigo.
O isolamento (da porta, não o social) foi prontamente explicado por um solícito agente de saúde. “Tivemos que isolar essa porta, porque as pessoas estavam fugindo sem tomar a vacina; vinham, recebiam o carimbo no cartão de vacinação, mas cortavam o caminho e iam embora sem se vacinar”. Ou seja, uma trapaça.
Logo, não basta um sujeito ser ignorante, ele é pusilânime também. Como em muitos locais destinados ao lazer é obrigatório apresentar o certificado de vacinação, o que se faz? Trapaceia-se!
Trapaceia-se e joga-se por terra todos os esforços das autoridades (só das que pensam com o cérebro, evidentemente, não das que “pensam” com o intestino) e das pessoas civilizadas no enfrentamento da pandemia.
A justificativa? Liberdade, dizem. Não, não é não! Eu sou jornalista, uma profissão que tem na liberdade a sua força motriz e digo: não existe nada de autonomia nisso, não, só tolice mesmo.
Liberdade, seja ela qual for, de expressão, de ação, de escolha, é uma “arma” de defesa, jamais de ataque. Jamais! Não existe direito absoluto. O bem maior, que neste momento é a saúde de toda a coletividade, se sobrepõe à escolha individual.
E quando se faz uso da liberdade para colocar vidas alheias em risco usa-se esse direito como uma arma para matar, sim! Em tempo, cometem-se muitos crimes atualmente, sobretudo nas redes sociais, usando a liberdade como pano de fundo.
Mas liberdade é um direito que existe para impedir que autoritários de ocasião cerceem outros direitos, que cometam crimes, não para que indivíduos resolvam criar suas próprias leis. Com 7 bilhões de pessoas no mundo, imaginem se cada um resolver legislar em causa própria.
Aliás, semanas atrás ouvi de uma pessoa por quem tenho imenso respeito que obrigar alguém a se vacinar expressa o “autoritarismo burguês”. Fica claro que a depender do indivíduo operando uma liberdade, tem-se o caos.
Veja bem, por mais que minha intenção aqui não seja entrar na questão ideológica, a clareza me intima a explicar que essa pessoa se diz ” de esquerda”. Prova de que a imbecilidade é democrática, vai de um extremo ao outro do espectro ideológico.
Retornando ao que ouvi no Theatro Municipal: esse é só um pequeno recorte, de uns 20 minutos em um ponto específico numa das principais capitais do país. Imagina o que acontece Brasil afora, com todas as suas desigualdades e os seus cidadãos cobertos de razão e de ignorância o tempo inteiro.
Não quer se vacinar, ok, não se vacine, você já está perdido e não há mais o que se possa fazer para civilizá-lo (e você tem a liberdade de ser estúpido e homicida contumaz), mas assuma e arque com as consequências depois. E saiba que as pessoas civilizadas querem distância de você, porque você é o oposto de um ser humano libertário.
É importante destacar que muitos cientistas que passaram décadas dentro de um laboratório estão trabalhando para encontrar as melhores saídas para essa crise mundial. E estão conseguindo.
A vacina é a principal delas, e é segura. Pode causar reações? Claro que sim! Qualquer remédio pode causar reação. É normal. Mas vai salvar mais vidas do que deixar braços doloridos ou corpos febres — sim, febres é o plural de febre.
Já está claro que evitar aglomerações, tomar cuidados básicos de higiene e receber os imunizantes desenvolvidos a toque de caixa e de muita excelência científica são as únicas soluções que produzem resultados eficazes contra esse SARS–CoV–2.
E pensar em todos, e não apenas em si, não significa que você esteja abrindo mão da sua liberdade, não. Pelo contrário, isso significa que você anseia em poder viver em liberdade ao lado de todos na sociedade, com segurança e saúde.
O que só será possível se todos estiverem vivos. TODOS, inclusive você. Nem todo mundo tem a sorte de adoecer e sobreviver.
O raciocínio estulto de que ao optar por não se vacinar você só está colocando a si em risco é uma afronta à lógica e à decência.
Seria como se você dissesse que é preciso dar liberdade às pessoas para dirigirem bêbadas, porque se elas sofrerem um acidente, só se quebram elas próprias.
Não!, obtuso! Essa pessoa pode atropelar uma criança na calçada, ou matar uma família inteira em outro veículo, que seguia todas as regras civilizatórias, mas que perdeu a vida em nome do direito à liberdade do motorista em dirigir bêbado. Sim, o raciocínio é o mesmo para a obrigatoriedade da vacinação.
Porque ninguém toma a vacina apenas para proteger a si. Ao nos vacinarmos, diminuimos o risco de contágio e, consequentemente, de transmissão do vírus. E só o controle será capaz de reduzir o isolamento social e as demais regras rígidas de convivência.
Em resumo: só vamos sair dessa vivos com ciência e com empatia. Com a liberdade de ter saúde!, a que mais importa neste momento.
Já a estupidez não ajuda em nada, só atrapalha.